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'White people shoot at us': Southern Brazil's Indigenous communities fight for ancestral land for Le Monde

Text by Bruno Meyerfeld

Entre a Colômbia e o Panamá, o Tapón del Darién é uma das regiões mais inóspitas da América Latina. Uma vasta área de floresta tropical, rios e montanhas que se estende por milhares de quilômetros quadrados, interrompendo a Rodovia Pan-Americana por cerca de 100 quilômetros. Nos últimos anos, essa região se transformou em uma das principais rotas migratórias rumo aos Estados Unidos.

Em 2023, no auge da crise, mais de 520 mil pessoas atravessaram o Darién, entre elas mais de 113 mil crianças e adolescentes. Famílias inteiras, principalmente da Venezuela, mas também do Haiti, do Equador e de países da África e da Ásia, enfrentavam dias de caminhada pela floresta, atravessando rios caudalosos e terrenos íngremes, expostas à fome, à exaustão, à violência e à morte. Crianças pequenas percorriam a selva nos braços dos pais ou caminhavam por conta própria, submetidas aos mesmos perigos dos adultos.

Em 2024, ano em que realizamos este trabalho documental, mais de 302 mil migrantes ainda cruzaram a região.Mas o endurecimento das políticas migratórias dos Estados Unidos e as restrições impostas pelo Panamá transformaram radicalmente esse cenário. Em 2025, apenas 3.091 pessoas fizeram a travessia, uma queda de aproximadamente 99% em relação ao ano anterior.

A floresta que chegou a receber milhares de pessoas por dia está hoje quase deserta. Mas o esvaziamento dessa rota não significa o fim da crise migratória. As razões que levaram tantas famílias a abandonar seus países permanecem, enquanto novas barreiras restringem suas possibilidades de deslocamento.

Este projeto documental nasce da experiência de acompanhar essa travessia, registrando sua dimensão humana e refletindo sobre o Darién como expressão das fronteiras físicas, políticas e invisíveis que atravessam o mundo contemporâneo. Mais do que documentar uma crise migratória, o trabalho procura revelar a determinação humana de superar essas barreiras em busca de uma vida melhor, e a contradição de uma jornada em que a esperança de realizar um sonho pode se transformar em pesadelo.